Frete internacional em alta: o que está pressionando custos e decisões de importação

A volatilidade do frete internacional voltou a ocupar um lugar central nas decisões de importação. Em 2026, fatores geopolíticos, econômicos e climáticos passaram a pressionar as rotas, a disponibilidade de espaço e a previsibilidade da logística internacional. Nesse contexto, o aumento dos custos do frete marítimo — que, em algumas rotas, se aproximou de 400% — deixou de representar apenas uma oscilação pontual e passou a afetar o planejamento das importações, as margens de lucro e as decisões comerciais.
No mundo
Os preços do frete marítimo voltaram a subir em 2026. O World Container Index, um dos principais indicadores globais de fretes de contêineres, calculado pela Drewry, registrou alta de 9% no início de julho e alcançou o maior nível em quase dois anos. Nas rotas com destino ao Brasil, o impacto foi ainda mais expressivo: os valores cobrados por contêiner nos embarques provenientes da Ásia mais que triplicaram em relação ao início do ano, pressionando os custos operacionais e as margens das operações de importação.
Esse movimento resulta de uma combinação de fatores que vai além da geopolítica. A antecipação da demanda para a formação de estoques, os ajustes de capacidade promovidos pelos armadores e a sazonalidade do segundo semestre somam-se às tensões no Oriente Médio, mantendo o frete como um elemento relevante do planejamento logístico internacional.
A escalada das tensões no Oriente Médio aumentou a atenção sobre rotas estratégicas para o transporte marítimo, especialmente as que passam pelo Estreito de Ormuz e pelo Mar Vermelho. Mesmo quando não há impacto direto sobre o transporte de contêineres, a pressão sobre os preços do petróleo, os seguros e a movimentação de navios tende a se propagar por toda a cadeia de suprimentos.
O ponto central é que o mercado não espera que uma ruptura se concretize para ajustar os preços. A própria percepção de risco já influencia contratos, disponibilidade de espaço, custos de seguro e decisões de roteirização. Dessa forma, o frete torna-se sensível às mudanças no cenário geopolítico antes mesmo da ocorrência de qualquer bloqueio efetivo.
O El Niño também voltou ao radar do planejamento logístico em 2026. A Organização Meteorológica Mundial aponta uma alta probabilidade de formação do fenômeno entre junho e agosto, com potencial para alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões.
O histórico recente demonstra a dimensão dos possíveis impactos. Entre 2023 e 2024, a seca no Lago Gatún restringiu o trânsito pelo Canal do Panamá e levou parte das cargas a utilizar rotas mais longas. Como o canal concentra cerca de 5% do comércio marítimo global, qualquer restrição hídrica pode afetar prazos, custos e a previsibilidade das operações de importação.
No Brasil, espera-se que o El Niño se intensifique a partir do início da segunda quinzena de agosto, com previsão de chuvas mais intensas na Região Sul e de condições mais secas nas regiões Norte e Nordeste.
No Brasil
A recomposição gradual das alíquotas de importação de veículos elétricos e híbridos, em vigor desde 1º de julho de 2026, levou à antecipação de embarques provenientes da Ásia e à ocupação da capacidade dos navios antes mesmo do ciclo tradicional de formação de estoques para a Black Friday e o Natal. Em outubro, a Golden Week chinesa, feriado nacional celebrado entre os dias 1º e 7, deverá reduzir o ritmo das fábricas, dos operadores logísticos e dos fluxos internos de mercadorias, pressionando ainda mais as janelas de embarque disponíveis para as empresas que dependem das importações asiáticas.
Além dos fatores externos, o Brasil enfrenta uma pressão estrutural em sua logística internacional: o desequilíbrio entre os fluxos de importação e exportação de cargas conteinerizadas. Quando o volume de entrada de contêineres é superior ao de saída, a necessidade de reposicionamento dos equipamentos vazios passa a influenciar a composição dos custos das rotas.
No Porto de Santos, o maior complexo portuário do país, estimativas de mercado indicam que o THC — tarifa cobrada pela movimentação de contêineres nos terminais — passou de uma faixa entre US$ 70 e US$ 100 por TEU, em 2019, para aproximadamente US$ 500, em 2026. Em um cenário de fretes elevados, encargos dessa natureza reforçam a importância de um planejamento logístico integrado nas operações de importação.
Na Sertrading, a volatilidade dos fretes é monitorada como parte da estruturação das operações de importação. Como trading especializada em comércio exterior, avaliamos os impactos logísticos e financeiros de cada operação para apoiar decisões mais previsíveis e seguras, especialmente em projetos de importação de maior complexidade.
Fontes: Exame; Valor Econômico; Drewry World Container Index; Hellenic Shipping News; DatamarNews/DataLiner; Reuters; Organização Meteorológica Mundial; FMI; ANTAQ; CNN Brasil/Neowise Consultoria.







